Últimmas Folhas

22 de outubro de 2013

História dos Países Emersos

PREÂMBULO
A Chuva
*

Havia começado em Janeiro, depois do eclipse, e não havia parado mais. Hoje completaria um ano e dez meses de chuva ininterrupta. Começara na Terra do Fogo, no extremo sul do continente, logo depois que o eclipse acabou e, lenta e vagarosamente, as estranhas nuvens vindas do pólo sul se espalharam pelos céus do Chile e da Argentina, até chegarem aos vizinhos, até chegarem a todos os lugares. Em questão de semanas, as nuvens estranhas estavam em toda parte. Ou pelo menos, em quase toda parte. Os relatos eram de que, aparentemente, a Chuva (ainda?) não havia chegado completamente na Colômbia e na Venezuela, nem no extremo norte das Guianas Francesa e Inglesa e do Suriname. Nesses países, Ela havia parado ao sul, aproximadamente na mesma latitude da cidade de Bogotá. Todo o resto do continente americano, porém, estava emerso em chuva e nuvens. Os noticiários internacionais passaram a nos chamar de “Países Emersos”.
Países Emersos, como se já estivéssemos em nossos túmulos aquáticos.

 
As pessoas vêm tentando desesperadamente entrar em território colombiano ou venezuelano. Enfrentar o mar violento dos dois lados do continente não é mais uma opção: eles se tornaram inavegáveis, e em nossos céus helicópteros e aviões caem como moscas tontas, arrebatadas por ventos fortes e visibilidade zero… Porque nos mares a Chuva é mais violenta e as nuvens, mais densas. Ou pelo menos, é o que dizem. Daqui debaixo, e mesmo com um telescópio simples, podemos observar essas nuvens anômalas que nos castigam. Colômbia e Venezuela são os únicos caminhos seguros para longe das nuvens estranhas, para além da Linha do Equador, disso todo mundo sabe.
Em terra, a Chuva não é torrencial. É mansa, quase que convidativa… Quando se espalhou, ninguém realmente se preocupou. Depois de um mês, toda essa mansidão foi vista como um deboche à humanidade. E depois de um ano, causou tantos estragos quanto um tsunami. Os transtornos públicos vêm sendo imensos. As hidrelétricas, quase todas, viraram História. As multinacionais debandaram. As cidades e comunidades ribeirinhas foram quase que completamente engolidas pelos rios. O mar engoliu a beira-mar. Os pontos mais seguros do continente são os de altitude. Houve uma migração em massa depois que as represas por quase todos os Países Emersos estouraram, todos correndo para cidades altas ou construindo Cidades Inventadas. O que se sabe é que nas terras do rio Amazonas é impossível viver em terra firme, e que das nossas grandes cidades à beira-mar só restaram praticamente os morros e os altos picos dos arranha-céus de luxo abandonados. Os Andes agora são a melhor coisa que temos: quem chegar lá primeiro é Rei, dizem. O problema é chegar lá…
Ninguém sabe explicar as nuvens. Cientistas do tempo, físicos, especialistas em mudanças climáticas… Ninguém entende ou explica a Chuva. E, no entanto, cá está ela, tão real quanto qualquer outra coisa. Eu não sei como explicá-la, mas o que não faltam são teorias. Aqueles que ainda conseguem acesso a internet e à energia elétrica para carregar baterias, espalham histórias das mais absurdas às mais sensatas. Não sabemos em que acreditar, e acaba-se por acreditar em qualquer coisa. No nosso rádio de pilha, (e temos mais de trezentas pilhas estocadas na Casa), ouvimos todo tipo de absurdo. Há os pregadores, os desesperados, os politicamente corretos, os místicos, os governantes, os ingênuos… Com a produção e alcance televisivos drasticamente diminuídos, o rádio é o nosso salvador, aquele que nos une. Em algum momento, porém, as pilhas vão acabar, ou essas nuvens anômalas se tornarão tão densas que a transmissão, já bastante prejudicada, será completamente anulada…
Ao fim do primeiro ano, soubemos pelo rádio, foi notícia em todas as rádios de todos os países (nosso aparelho recebe ondas curtas, médias e longas): houve suicídios coletivos. Culparam o tempo nublado por causa da depressão das pessoas… E não podiam estar mais certas. Um pregador apocalíptico equatoriano, com altos índices de audiência, promoveu o evento. E não houve quem o impedisse. As preocupações e prioridades, agora, são outras.
As forças venezuelanas e colombianas se uniram, e ainda são assistidas pelos exércitos dos países Pra Lá Da Chuva. Eles abandonaram a politicagem e o discurso humanitário e passaram a exterminar as hordas de imigrantes que tentam se aproximar dos países. O caso não é tão grave nas Guianas nem no Suriname, apesar do desastroso aumento populacional no norte desses países, que também tentam combater a invasão sem nenhuma pretensão humanitária.
A imprensa e as Nações Unidas fazem cara feia – mas é tudo o que fazem.
Eu, que um dia morei na submersa Recife, agora me abrigo no ponto mais alto que consegui na Serra da Borborema. Tenho um observatório amador, é praticamente o único da região. Não me abriguei nas Novas Cidades Inventadas pelo interior do Brasil – fiz minha própria casa, com minha família e alguns braços alugados.
É melhor assim, longe das multidões. Em tempos de desespero, cão come cão, apesar de certas comunidades religiosas terem se mantido bastante unidas, além dos grupos de retirantes do litoral que vêm das mesmas regiões… Mas existe um limite para essa unidade, e eu sei disso porque vi acontecer em Recife.
Depois de dois meses seguidos de chuva, eu já havia começado a prever o pior. As enchentes estavam tornando a vida na cidade impraticável, e foi então que decidimos nos mudar. Eu e meu marido concordamos que o melhor seria um lugar alto. Serra da Borborema. Cogitamos a Chapada Diamantina, mas era mais distante e a viagem, mais custosa. Começamos a construir nossa Casa-Observatório três meses depois da Chuva, e bem antes das Grandes Calamidades.
Meus dois filhos que ainda moravam conosco protestaram, nunca foram tão paranóicos quanto nós, mas já estava tudo decidido. Nosso filho mais velho, Manuca, já casado e morando com sua esposa, juntou-se a nós. Vendemos os dois apartamentos em Recife, além do terreno em Aldeia (que saiu quatro vezes mais caro do que compramos, devido à altitude da região), e passamos a investir na construção da Casa-Observatório no alto da Serra da Borborema.
Não podíamos ter feito nada melhor com nosso tempo e dinheiro naqueles momentos de crise. As poupanças, a venda de algumas jóias e objetos de luxo, cada centavo foi investido na Casa, que nos custou mais do que esperávamos por causa do transporte do material. Passamos a morar num casebre improvisado enquanto a construção não ficava pronta. Os mais novos só faltaram chorar quando saímos de Recife, uma parte do caminho de bote, outra, de trator, até pegarmos o carro. Apesar dos protestos, eles sabiam. Estávamos deixando uma cidade à beira de um colapso – estávamos deixando para trás uma cidade já morta e que apenas não sabia disso ainda.
Havia outros como nós, alguns poucos que saíram antes das Grandes Calamidades. Porque na boca do mar, não há para onde correr, senão para longe dela. As soluções temporárias que as grandes construtoras e a prefeitura conjecturavam e, algumas vezes, até colocavam em prática, nunca seriam suficientes.
Nós fugimos. Abandonamos nossa cidade à própria sorte, e isso nos doeu. Mais tarde, durante as Grandes Calamidades, ouviríamos notícias pelo rádio sobre o caos, sobre o cão-come-cão que se instaurou na submersa Recife.
O Exército era o mesmo que nada. Depois das Grandes Calamidades que se espalharam por todos os Países Emersos, em maior ou menor grau, a deserção foi prática comum entre os militares. Pegavam armas e munição, suas famílias, às vezes um helicóptero, e fugiam. Os nacionalismos se dissolviam na suave e constante Chuva que caía, como papel manteiga.
Com a Chuva perpétua, a construção demorou mais do que o esperado, mas havíamos contratado ótimos homens, que estavam igualmente dispostos – e desesperados – para deixarem Recife. Não lhes pagamos com dinheiro, que agora pouco valia. Demos, sim, pequenas casas em Arcoverde, cidade na porta do sertão pernambucano e bem longe do mar, que compramos com parte do dinheiro que conseguimos juntar. Era tudo o que eles queriam: sair com suas famílias de Recife e ter um lugar para onde ir. As casas eram minúsculas, risíveis, mas brilhavam com o ofuscante brilho da esperança.
Trabalhamos sem descanso. Era a única coisa que mantinha nossas mentes minimamente calmas. Tínhamos problemas de provisões, mas não de água. Bebíamos da água que caía do céu, sem luxos ou tratamentos higiênicos. Os grupos se revezavam para ir comprar mantimentos na cidade próxima, mas era cada vez mais difícil e mais caro.
A comida, hoje, é parca e com pouca variedade, mas isso não é um problema exclusivo de nossa reclusão: em todo lugar está assim. As colheitas morrem afogadas. A comida enlatada é disputadíssima, o abastecimento dos mercados é custoso e difícil. Não sei quanto tempo mais iremos agüentar.
A ajuda externa não virá.
As promessas são muitas, os discursos são intermináveis, políticos se elegem nos outros países em nossa defesa, mas, ao final, estando no Brasil ou no Peru, cercado por água em algum arranha-céu de luxo, encarapitado em montanhas ou serras, agrupados em Cidades Inventadas ou isolados, todos dos Países Emersos sabem: nós estamos sozinhos.
E sozinhos morreremos.